A indústria portuguesa do calçado está a investir 600 milhões de euros em inovação

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PORTO, Portugal — A indústria portuguesa tem a missão de levar o seu know-how para a era digital e preparar o seu artesanato e o crescimento dos negócios para o futuro, com 600 milhões de euros em investimentos até 2030.

No âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia, ou PRR, a APICCAPS, Associação Portuguesa de Fabricantes de Calçado, Componentes e Artigos de Couro, está a impulsionar esta transformação, liderando programas dedicados de inovação, envolvendo as empresas que representa.

Entre elas, FAIST, um acrónimo para Factory Agile, Intelligent, Sustainable and Technological, viu 45 empresas de calçado investirem cerca de 50 milhões de euros no avanço das suas capacidades de alta tecnologia, com a robótica e a automação no centro das atenções. O governo português contribuiu com 30 milhões de euros através de fundos do PRR.

“Portugal tem o conhecimento, a criatividade, a tradição e a tecnologia para fazer avançar um modelo competitivo”, afirmou Luís Onofre, presidente da APICCAPS, falando no Porto, no Palácio da Bolsa de Portugal, ou Palácio da Bolsa, durante a conferência de dois dias “Bem-vindos à Indústria do Futuro”, que terminou quarta-feira. “O FAIST é a maior prova de confiança no futuro”, disse ele.

Em 2024, as exportações da indústria local de calçado – principalmente para países europeus, além dos EUA – situaram-se em 2,1 mil milhões de euros em 2024, aumentando a uma taxa composta de crescimento anual de 15,2 por cento desde 2020.

A concorrência global está a aumentar e a pressionar cada vez mais a cadeia de abastecimento e os objectivos empresariais do país.

“A Europa não pode ficar confinada a um pólo secundário. É o lugar da qualidade… Temos de manter a produtividade e ser competitivos a nível global e temos apostado no valor acrescentado que os nossos produtos e marcas trazem”, disse Onofre.

Dentro do "Bem-vindo à Indústria do Futuro" conferência no Porto, Palácio da Bolsa de Portugal.

Por dentro da conferência “Bem-vindo à Indústria do Futuro” no Porto, Palácio da Bolsa de Portugal.

Cortesia da APICCAPS

Segundo dados avançados por Vasco Rodrigues, professor associado da Porto Business School da Universidade Católica Portuguesa, a Ásia impulsiona a produção de calçado a nível global, que em 2024 ascendeu a 23,9 mil milhões de pares de calçado, com a China sozinha a representar 54,3 por cento do total, seguida pela Índia, Vietname, Indonésia e Paquistão.

Este último país fabrica mais calçado do que a Europa como um todo, uma vez que a produção do Velho Continente representou apenas 2,3 por cento em 2024, ao mesmo tempo que contribuiu para 12,6 por cento de todas as exportações de calçado, especialmente dentro do continente.

FAIST

Cerca de 45 entidades copromovem o FAIST, entre universidades e centros tecnológicos, além de players de calçado. Eles se comprometeram a promover a automação de linhas de produção inteligentes, processos de digitalização, sistemas de produção e classificação energética baseados em dados, produtos e materiais sustentáveis, bem como pilotos para a economia circular, explicou Florbela Silva, coordenadora do projeto FAIST.

“O principal objetivo deste projeto é ampliar a expertise do setor e ser competitivo em todos os produtos de calçados e em todos os mercados”, disse Silva. “Queremos aumentar o quociente digital e tecnológico da produção local e ter uma resposta rápida às tendências do mercado, e não menos importante, ter uma produção sustentável e produtos impulsionados pela inovação constante.

“A indústria portuguesa de calçado não segue os líderes. Queremos que os líderes nos sigam”, afirmou Silva.

O programa atualmente está com 75% de conclusão.

Durante múltiplas visitas a complexos fabris das empresas inscritas na zona envolvente da vila de Felgueiras, o nível de automatização da produção destacou-se pela sua perfeita integração com abordagens artesanais.

Na Carité, por exemplo, um robô ajuda a alisar a parte superior dos sapatos antes que os artesãos colem a sola nele.

Um robô em ação dentro da fábrica da empresa portuguesa Carité.

Um robô em ação dentro da fábrica da empresa portuguesa Carité.

Cortesia da APICCAPS

“O impacto demonstrado deste tipo de projeto é um tempo de lançamento no mercado mais rápido, maior eficiência de produção e maior sustentabilidade e rastreabilidade”, disse Silva. “Fomentar a inovação está redefinindo nossos objetivos de crescimento.”

Esta iniciativa direcional resulta da volatilidade dos mercados internacionais e dos obstáculos enfrentados pelas cadeias de abastecimento globais.

Segundo Rodrigues, da Universidade Católica Portuguesa, a indústria local de calçado enfrentará uma série de variáveis ​​nos próximos anos, incluindo uma contracção esperada da população europeia em 5 por cento até 2050; a mudança nas preferências dos consumidores que valorizam cada vez mais a sustentabilidade, o conforto, a saúde e a personalização, bem como os obstáculos à conclusão dos processos de nearshoring, ainda mais alimentados pelas tarifas dos EUA, num contexto de falta de trabalhadores no Velho Continente e da onda de inovações de alta tecnologia a abraçar.

A concorrência dos fabricantes globais de calçado também influencia.

“Houve uma transformação na indústria com a externalização da produção (fora da Europa). Até certo ponto funcionou, mas agora esses mercados não importam do exterior… enquanto inundam a região com os seus produtos”, disse César Araújo, presidente da ANIVEC, Associação Nacional dos Fabricantes de Vestuário, Indústrias Têxteis e de Moda de Portugal, manifestando a sua preocupação com o número de encomendas enviadas para a Europa de empresas de moda ultra-rápida não sujeitas a direitos aduaneiros – um motivo de preocupação também em França e Itália, conforme relatado.

Dentro de uma fábrica de calçado portuguesa.

Dentro de uma fábrica de calçado portuguesa.

Cortesia da APICCAPS

“Estamos a passar por muitos desafios e mudanças, mas é também um momento de grandes oportunidades e a indústria portuguesa vai encontrar o seu caminho”, disse Rodrigues em comentários tranquilizadores e esperançosos ao público da conferência.

Os empregos são seguros?

Em meio ao avanço tecnológico, o futuro dos trabalhadores industriais — e a falta dele — surgiu frequentemente em cena, mas a APICCAPS e os promotores do FAIST estimaram a criação de 300 empregos altamente qualificados como resultado dos investimentos.

“Muitas vezes me perguntaram como será a futura fábrica e se é provável que tenhamos pessoas a trabalhar. A resposta é que teremos ambos e o FAIST é uma prova disso. Estamos a desenvolver tecnologias para melhorar os empregos nas fábricas, para ajudar as nossas fábricas a serem mais eficientes”, explicou Silva.

Vitor Almeida, diretor técnico da Tropimática, empresa produtora de máquinas industriais automatizadas, esteve presente.

«Como alguém que trabalha com robótica há décadas, ouço pessoas dizerem que os robôs e a tecnologia roubarão empregos às pessoas. Se excluirmos algumas profissões e indústrias de nichos muito específicos, as empresas que não investem em tecnologia e robótica não conseguirão produzir na Europa num futuro próximo, também por falta de mão-de-obra.

“A substituição de empregos não qualificados por empregos qualificados, por vezes através de requalificação, é um excelente exemplo de boas práticas”, acrescentou Almeida.

É certo que as fábricas de alta tecnologia são vistas como um motor do apelo dos empregos na indústria, de acordo com as empresas inscritas no programa FAIST.

“A indústria do calçado na Europa tem dois grandes problemas: um é a falta de mão-de-obra e o segundo é que existem tarefas repetitivas que as pessoas não querem fazer”, disse Albano Fernandes, CEO e fundador da AMF Safety Shoes.

“Qual é o custo de não implementar tecnologia?” ele questionou. “Não há outra possibilidade a meu ver além do investimento em automação e robótica para ainda sermos competitivos no mercado atual.”

Dentro de uma fábrica de calçado portuguesa.

Dentro de uma fábrica de calçado portuguesa.

Cortesia da APICCAPS

Ventura Correia, gestor do departamento de moldes da Carité, apelou aos seus pares para que continuem a investir em recursos humanos.

“Os robôs são muito importantes na produção, mas não devem ser vistos como substitutos. Qualquer empresa que substitua pessoas por robôs na esperança de produzir mais e melhor, sofrerá um tiro pela culatra. Os robôs precisam ser um complemento e não um suplemento aos humanos”, disse ele.

“As empresas são pessoas, sem pessoas as empresas valem zero”, repetiu Fernando Ferro, presidente do Grupo FFI e CEO da DCSI PRO, empresa ativa na automação de máquinas.

“A empresa faz parte da sociedade e ao fazer investimentos deve ter em conta a produtividade, a eficiência, a qualidade e a singularidade, mas também valorizar as pessoas”, afirmou Correia, da Carité.

Além do FAIST, o investimento total da indústria portuguesa de calçado de 600 milhões de euros inclui um segundo projecto no valor de 60 milhões de euros orientado para a implementação em maior escala de materiais sustentáveis.

Conhecido pelo nome Bioshoes4ll e liderado pela APICCAPS e CTCP, centro português de tecnologia de calçado, o projeto reúne mais de 70 entidades do setor empenhadas em dimensionar a utilização de ingredientes de base biológica derivados de resíduos de azeitona, borra de café, casca de arroz, casca de ovo e extratos de oliveira, pinheiro, mexilhão e polpa de tomate.

Dentro de uma fábrica de calçado portuguesa.

Dentro de uma fábrica de calçado portuguesa.

Cortesia da APICCAPS

«Enfrentamos grandes transformações económicas, ambientais e tecnológicas e precisamos de garantir que todas elas estão ao serviço das pessoas, dos seus empregos e da sua criatividade. O calçado não é apenas uma questão de fabrico, mas também de identidade, criatividade, design e inovação», afirmou Rosana Peran, presidente da Confederação Europeia do Calçado.

“Isso não significa desistir da tradição, mas incorporar a tecnologia no artesanato. A inovação pode redefinir a competitividade, mas a IA não pode substituir a experiência e a inteligência dos seres humanos. A tecnologia precisa ser uma ferramenta ao serviço das pessoas”, disse ela.

“A indústria portuguesa de calçado prova que a tradição pode ser moderna e a tecnologia pode ser fomentada por um toque humano”, acrescentou Sofia Moreira de Sousa, representante portuguesa da Comissão Europeia.

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